Vera Lacerda e o Ara Ketu: a história de um bloco criado para enfrentar desigualdades
A trajetória mostra como música, identidade e organização comunitária enfrentam desigualdades.
A história do Ara Ketu não começa apenas quando o bloco se torna conhecido no carnaval. Ela nasce de uma inquietação social e de um projeto construído em Periperi, na periferia de Salvador. A professora e historiadora Vera Lacerda criou a agremiação em 1980, ao lado do primo Augusto César, entendendo música e cultura como ferramentas de organização e afirmação.
O nome faz referência à cidade de Ketu, no Benim, e conecta a experiência baiana à memória africana. A escolha não é decorativa. Ela reposiciona a identidade negra no espaço público e cria uma linguagem para falar de ancestralidade, desigualdade e pertencimento. O bloco participa de uma tradição em que carnaval também é disputa por representação e direito à cidade.
A trajetória de Vera mostra como instituições culturais podem nascer fora dos centros de decisão. O projeto social não é um acessório da música, mas parte de sua razão de existir. Oficinas, formação, circulação de artistas e criação de repertório produzem oportunidades que não aparecem quando a cultura é medida apenas por bilheteria ou número de apresentações.
A experiência também ajuda a discutir a permanência dos blocos afro. Visibilidade pública precisa vir acompanhada de financiamento, preservação de acervos, proteção contra apropriação e espaço para novas gerações. O Ara Ketu atravessa décadas porque transforma memória em prática. Sua história não pertence somente ao passado: continua perguntando que cultura pode alterar a vida de uma comunidade.
Fonte: Agência Brasil.
FOTO: VALTER CAMPANATO/AGÊNCIA BRASIL